Política e Econommia

Raízen realiza maior recuperação extrajudicial do Brasil e renegocia com credores 65 bilhões

8 de junho de 2026

A Raízen formalizou um passo decisivo para solucionar sua crise financeira ao alcançar a adesão de 75,5 por cento dos credores ao seu plano de recuperação extrajudicial. O acordo abrange um passivo de cerca de 65 bilhões de reais, consolidando-se como a maior reestruturação extrajudicial da história do Brasil.
A proposta foi oficializada em fato relevante pela gigante do setor de açúcar, etanol e distribuição de combustíveis, confirmando informações antecipadas pelos bastidores do mercado financeiro. Com esse patamar de aprovação, a empresa superou com folga o limite legal necessário e cumpriu o objetivo antes do prazo limite estipulado pela Justiça. A expectativa da administração era de que a adesão total pudesse ultrapassar a marca de 80 por cento nos dias seguintes ao anúncio.
O plano desenhado envolve diretamente 19 instituições financeiras e aproximadamente 80 grandes detentores de títulos de dívida internacionais, conhecidos como bondholders, além de impactar títulos adquiridos por milhares de pessoas físicas. A negociação foi marcada por momentos de forte tensão, incluindo resistências iniciais de fundos estrangeiros e cobranças firmes de grandes bancos nacionais, que exigiam garantias de capitalização e mudanças na governança.
A engenharia financeira aprovada estabelece que 45 por cento do montante total da dívida será convertido em participação acionária na companhia, o que resultará em uma diluição dos atuais acionistas controladores. Os 55 por cento restantes do passivo serão transformados em novos instrumentos de dívida com prazos alongados.
Como parte dos compromissos operacionais para viabilizar o plano, a Raízen prevê a segregação de seus negócios até o fim do ano de 2027. O segmento de processamento de cana-de-açúcar será separado da unidade de distribuição de combustíveis. Outra medida estratégica que contribui para o caixa da reestruturação é a venda dos ativos de downstream na Argentina para a trading Mercuria, em uma operação avaliada em mais de 1,4 bilhão de dólares.
Com o arranjo e as injeções de capital previstas, incluindo o suporte financeiro de sua co-controladora Shell, a alavancagem financeira da Raízen deve recuar para patamares próximos de 3 vezes a sua geração de caixa. A reestruturação estanca um cenário severo que havia levado as principais agências de classificação de risco, como a Fitch e a S e P, a rebaixarem as notas de crédito da companhia em múltiplos níveis no início do ano.
Na governança, o diretor financeiro Lorival Luz passa a acumular a função de diretor de reestruturação. O atual conselho de administração deve permanecer em suas posições até o primeiro trimestre do próximo ano, mantendo as discussões sobre a configuração definitiva do controle acionário e os aportes adicionais dos fundadores após a conversão dos débitos em ações. A Raízen reforçou que o processo possui escopo estritamente financeiro, mantendo intactos e sem interrupções os pagamentos e contratos com fornecedores, parceiros comerciais e clientes.